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O filme “O Mínimo Para Viver” (To the Bone), 2017, escrito e dirigido por Marti Noxon e protagonizado por Lily Collins, aborda a luta e o tratamento de Ellen (Lily Collins) para superar a anorexia. Quando Ellen não vê mais solução para superar sua doença, aparece a figura do Dr.Beckham (Keanu Reaves), que indica uma clínica para pessoas com distúrbios alimentares.

Considerações sobre Família e Anorexia a partir do filme “O Mínimo para Viver”
Eneida Marques*

O filme “O Mínimo para Viver” retrata importantes elementos clínicos em famílias com integrantes portadores de doença grave, como a anorexia. Considero que uma das demandas clínicas, bem mostrada pela diretora Marti Noxon, é o entendimento familiar sobre a doença: a leitura que a família faz do adoecimento de um de seus membro. A família vendo o corpo da filha definhando fica muito angustiada e tenta reagir dentro dos padrões conhecidos e, muitas vezes, adoecedores. Geralmente age com: coerção, manipulação, insistências e punições que apenas provocam as resistências da doente. Desacomodar e tornar o grupo familiar partícipe do tratamento, é o nosso desafio.
Comecemos pensando na estrutura da família de Ellen, 20 anos, nossa protagonista.
Ellen, desde pequena até sua adolescência viveu com a mãe. O pai pouco envolveu-se com a filha. O casal separou-se.
A mãe de Ellen (atriz Lili Taylor, no papel de Judy) teve depressão após o parto da filha. Passou por longo e difícil processo até assumir sua homossexualidade e por isso, sente-se culpada por não ter, suficientemente, maternado a filha. Considera que falhou como mãe. Aos 13 anos da menina, a mãe assume a relação homossexual, mantida em silêncio. Em seu novo casamento, muda-se para uma região rural nas montanhas.
O pai formou nova família com a esposa e uma filha, dois anos mais nova do que Ellen.
Judy dedica-se a crenças e valores espirituais. De forma oposta, na família do pai observa-se a valorização de elementos característicos de uma vida burguesa. A função do pai é sustentar financeiramente a família atual, pagar a pensão da “ex” e assumir os custos da doença da filha. Os pais de Ellen parecem não ter interesses em comum. Nem a filha!
Ellen circula no seu mundo familiar como uma intrusa ou hóspede. Carrega sua mochila e alguns pertences entre a clínica, seu quarto na garagem da casa do pai ou numa barraca próxima à casa da mãe, utilizada para aluguel.
A madrasta de saia justa e salto alto – caminha como se pisasse em ovos – tenta remendar os vazios de sua vida familiar e também, os de Ellen. É superficial. Considera que os problemas da enteada são consequentes das questões não resolvidas em seu passado: a separação dos pais por culpa da homossexualidade da mãe; o pai ausente por ter que trabalhar e sustentar sua ex família. Usa estes argumentos como defesa, fazendo-nos pensar que sua vida equilibrada sobre saltos altos e finos é perfeita e que Ellen é o problema.
Madalena Ramos (2014, p.123) diz que essas famílias nos mostram, apenas, uma parte do conflito, e assim, muitas questões ficam sem serem vistas.
Isidoro Berenstein, citado por Ramos, escreve que “geralmente quando aparece uma crise no funcionamento mental de uma pessoa, os elementos de seu grupo familiar se definem como sadios em oposição ao integrante apontado como o doente.”
Essas cisões dos papéis familiares: sadios/doentes; espiritualistas/materialistas; presentes /ausentes; urbanos/rurais geram economia nos afetos, que favorece ao individualismo, egoísmo, falta de proximidade, de intimidade, impedindo uma comunicação saudável entre as pessoas.
No filme, acusam-se, ofendem-se e se referem à Ellen a partir de seus sintomas:
 “Você parece um fantasma!” diz sua mãe.
 “Assim, vais morrer!” diz a madrasta.
 Oferecem-lhe estímulos inadequados: insistem para que coma, oferecem bolo em formato de hamburguer gigante; sugerem terapia com cavalos.
 O pai, segundo Ellen, quer que ela aprenda a ganhar a vida!
 A irmã mostra-se ressentida, pois suas vivências são balizadas pelos estados de saúde de Ellen. Podia ou não participar de eventos conforme a saúde de sua irmã mais velha.
 Todos apontam os incômodos, preocupações e custos gerados pela filha, sem compreender a sua doença. Todos opinam a partir de seus pontos de vista.
O familiar doente é percebido como o provocador do desequilíbrio familiar. Por isso, é cobrado pela falta de empenho em se curar. É acusado de obrigá-los a conviver com sua aparência esquelética. Para o grupo familiar é difícil perceber que estão diante de uma doença. Assim, resistem em aceitar a realidade e a se sentirem incluídos e participantes de todo o processo da enfermidade.
Assim, Ellen desenvolve forte sentimento de culpa. Considera ter levado uma menina à morte, após ter lido na internet uma poesia de sua autoria. O espaço ocupado pela culpa dentro de si é imenso, fazendo-a transformar seus talentos e criatividades artísticas em algo capaz de matar.
A função do tratamento é auxiliar a família em uma mudança de posição perante a doença, no caso a anorexia. A enferma precisa ser ouvida, porque é ela que sabe de si mesma.
No final, o drama expressa através de uma reviravolta no cenário e na postura dos personagens a necessária mudança em busca da linguagem do encontro. Após Ellen procurar por sua mãe, as esperanças de um prognóstico mais saudável são percebidas.
Mãe e filha revivem-se, agora, em suas verdades. Ellen aceita o colo e consegue engolir o alimento materno oferecido. Rendem-se uma à outra com intimidade e confiança. Um encontro verdadeiro, quando as duas se olham e se reconhecem genuinamente: Ellen em sua fragilidade e sua mãe mais confiante em si e em suas crenças.
A protagonista procurando-se, caminha pelas montanhas: o cenário materno. E, em sonho, depara-se com a sua morte, a serenidade e o amor. E parece se apaziguar!
Com leveza, agora, Ellen se aproxima dos familiares e retoma o tratamento abandonado.

Bibliografia:
Levisky et alli (organizadores). Diálogos Psicanalíticos sobre Família e Casal. As Vicissitudes da Família Atual. Volume 2. In: A Anorexia e sua Família. Magdalena Ramos. Editora Zagodoni: 2014, SP, pg.123.

*Terapeuta de Família e Especialista em Atendimento Clínico em Psicanálise

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